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Uma semana com ele...
Domingo Recebi assim, meio sem querer mas não tive como fugir. Foi depois da aula, o coloquei na sacola, junto com meu tênis que usei na apresentação desse domingo, coloquei a sacola no carro e fomos para casa.
Segunda Esqueci de retirar ontém a sacola do carro e o carro já não estava mais em casa. Fiquei o dia inteiro sem ele e por isso decidi não sair "sozinho" à noite.
Terça Decidi sair com a minha mochila hoje, apenas para poder carregá-lo. Fomos para o serviço, tinha esquecido de esvaziar a mochila no domingo e ela continuava cheia hoje enquanto eu a estava carregando por causa dele. Ficou o dia inteiro na mochila, em cima da minha mesa. Queria ter saído hoje, mas não pude pois estava com a garganta inflamada, voltamos então para casa.
Quarta Saí novamente com a mochila para carregá-lo. Ontém eu nem abri a mochila (lembrei enquanto saía de casa), assim, quando consegui me sentar no metrô decidi tirá-lo da mochila um pouco, pelo menos para observá-lo direito. Abri a mochila e senti uma vergonha imensa, haviam quatro pessoas me observando, pensaram que eu estava louco?!? Assim, em menos de cinco segundos ele já se encontrava novamente dentro da mochila. Nesses cinco segundos consegui perceber a cor dele e me lembrei de uma cena da peça "O Amor do Sim", onde a manicure Sueli conta para o iluminador Galego que quando foi à loja comprar o sapato que ele concertava, pediu o "marrom-claro" e o(a) vendedor(a) da loja disse que não se tratava de "marrom-claro" e sim de "caramelo". Era exatamente essa a cor dele, marrom-claro... tá... caramelo. Notei também nesses segundos de observação que havia um nome gravado nele: Gabriela! Mas não tinha certeza, pois olhei rápido demais. Cuidadosamente, sem que as pessoas reparassem, abri novamente a mochila para confirmar o nome. Estava correto, Gabriela. Aproveitei também e vi uma sequência de números que o diferenciava nos demais países. 4093839. Hoje apesar da garganta ainda não ter melhorado totalmente decidi sair, e fomos para o Festival Latino-Americano de cinema. Dentro da sala de cinema, eu decidi tirá-lo da mochila para acompanhar o filme. Ficou no meu ombro durante as duas sessões. Acredito que o escuro do cinema o tenha ajudado a sair da mochila. Passamos por um local na Rua Augusta que possuia um Brechó. Ficamos um pouco por lá e observei que existiam alguns sapatos femininos ali à venda. Lembrei dele que estava novamente na mochila e agora em cima do sofá que havia lá no local. Teria coragem de vendê-lo? Não, acredito que não.
Quinta Por que lugares ele já andou? Que tipo de ambientes frequenta? Não está velho nem gasto, será que existe há quanto tempo? Já havia estado em um cinema antes da noite de ontém? Essas questões passaram hoje pela minha cabeça, tentarei descobrir tudo isso no próximo domingo. Ele está agora atrás de mim, dentro da mochila, em cima do meu porquinho, não sabe que estou escrevendo tudo isso sobre ele nesse momento. Também não poderia saber. E se ele falasse... pensasse... sentisse? Acredito que não estaria satisfeito em ser o que é. Ninguém do mundo dos vivos está satisfeito com o que é ou com quem é, não seria diferente para ele. É bom que não possa falar, nem pensar e nem sentir. Agora fiquei com uma pontinha de inveja e uma tremenda vontade de ser como ele. Não sei qual o seu tipo, já ouvi uma vez algo a respeito desses tipos, não vou arriscar um nome porque sempre erro nesses chutes. Ainda bem que não jogo futebol, seria uma catástrofe. Por falar em futebol, hoje a seleção feminina deu um show no Pan. Assisti durante o almoço. Ele pertence a uma mulher, mas ele não poderia jogar futebol com ela, não é desses tipos, isso eu sei.
Escrito por Danilo às 13h56
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Continuação...
Sexta Assisti dois filmes hoje, em casa mesmo. Ele ficou no chão durante todo o tempo, lembrei que às vezes eu também preferia ficar lá no chão e assistir dali. Já assistimos a quatro filmes durante a semana, onde ele estaria se não fosse ali vendo filmes comigo? Pensei sobre isso e reparei que todos os meus sapatos e tênis estavam no escuro, dentro do guarda-roupa, era lá provavelmente que ele estaria se eu fosse o seu dono. Fui até o guarda-roupa e abri a porta, não entendi porque fiz isso, fiquei preocupado com o que estava fazendo pois parecia meio louco. Peguei então ele que estava na sala e coloquei dentro do guarda-roupa junto com os meus sapatos e tênis. Fechei a porta e fui dormir. Sábado ...
Domingo Um significante sem significado.. insignificante agora... era isso. As coisas que eram interessantes com o passar do tempo viram apenas coisas e precisamos de outras para nos ocupar. Fui até o guarda-roupa buscá-lo pois era hoje o dia de devolvê-lo. Ele havia se misturado com vários outros que foram jogados lá na última arrumação da minha irmã. Procurei por todos os lados, ofereci recompensa para quem o encontrasse, lembrei-me rapidamente de tudo o que acontecera durante a semana e depois de uma longa procura o encontrei novamente, percebi alguns sinais de poeira, mas não limpei, apenas coloquei na mochila e fui para a oficina. Saudades? Acho que não, era só um sapato, foi como um rio... já passou.
Escrito por Danilo às 13h55
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